
A arte de reclamar com o bispo

Antes que me perguntem, isso aqui não pretende virar um diário da favelada. Só que, como agora eu engrosso o número dos que residem em comunidades carentes, não daria para escrever sobre festas bombadas na Barra da Tijuca, porque eu não sei nada sobre essas coisas, nunca soube e tenho raiva de quem sabe, que fique bem claro [rs]. Só posso escrever com propriedade sobre assuntos que domino, e como estou pouco a pouco dominando a arte de viver em reais guetos, só pode ser assim mesmo, tenham paciência comigo.
Tarde de domingo, eu linda e castanha jazia sobre o sofá-cama do meu pseudo quarto, quando acordo sobressaltada na mais linda penumbra. Seria um charme não fosse meu tico e teco entenderem, depois de muito, que havia algo estranho ocorrendo no reino de Oz. Será que eu havia deixado tudo assim, apagado? Eu me lembro de ter tentado ver tv antes de dormir, pelo menos ela então teria que estar lá, funcionado para o fantasma da ópera... e eu não me lembrava de ter programado bosta de timer nenhum. Estranho.
Levanto cambaleando como eu só, no que ouço a minha vizinha charmosa vociferando bem na minha janela – pessoas de comunidades carentes costumam comunicar-se assim, um típico telefone-sem-fio sem telefone nem fio – e eu procurando entender, memória virtual do windows absurdamente baixa naquele momento. A vizinha falava em alto e claro som que tinha uma pipa, uns meninos, que enganchou, que o transformador, que volta amanhã e eu, atônita. Algum tempo de processamento mental depois, entendi que a luz tinha acabado em meia rua, justamente a minha metade, óbvio, por custa de uma pipa que uns guris haviam delicadamente enganchado não sei onde de um poste da Light. Que beleza. Imediatamente eu trouxe à tona a solução deste problema doméstico, eu tenho sempre todas as soluções. Hahãm.
- Por que então não ligam para a Light, oras? Simples assim. Afinal, era assim que se fazia, quando eu morava ainda no asfalto. Cai a minha ficha então. Cai não, despenca. Estela, como você, donzela, poderia ligar para a concessionária de energia elétrica se você não paga energia elétrica? Se a sua casa, como a de outras tantas da aprazível localidade, funciona pagando uma tarifa lá mínima de nada? Se eu fosse um funcionário da Light iria rir muito de minha própria solicitação. E que funcionários iriam atender, domingo à noite, num lugar tão feliz como aquele? Subir num poste para consertar um transformador seria algo como aventurar-se, desviando das balas perdidas. O jeito foi voltar à normalidade e sentir-me feliz de estar sem luz! Afinal, quem precisa de banho quente? :-)
às 14h03 []
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